domingo, 16 de março de 2014
Poder
O poder só existe para quem está disposto a perder ou não faz questão de ganhar. Todo o mais é blefe.
domingo, 2 de março de 2014
Pedra e água
Ver a morte de perto abre os olhos para a vida.
Exageramos o valor da vida,
até perceber que ela não é nada.
Ela vem... ela vai.
Estamos muito distanciados da morte.
Só a conhecemos pelo jornal ou
nos filmes e novelas da TV.
Só ouvimos dizer que acontece
do outro lado das telas,
no secluso abatedouro,
do outro lado da parede,
pela boca de outrem...
Na sala de espera do hospital,
no enlatado que abrimos à mesa,
no jornal cedo de domingo.
Escondemos a morte por detrás de cortinas.
Ela está perdida por aí, invisível,
enterrada.
E nada há mais valioso para o imortal
que a vida,
pois que lhe é eterna
Ilusão.
A vida vai assim como vem.
Frustrando-nos o narcisismo,
a grandiloquência que temos por nossa vida,
nada há de magnífico na morte.
E então a morte nos ensina
que nossa vida não é nada.
Não é um grande espetáculo,
aguardando o grand finale.
Na hora derradeira, não tocam as trombetas,
anjos não descem do céu,
não há lampejos de sabedoria divina,
ou últimas palavras dignas do melhor enredo.
Não, só há sujeira e dor
e,
num
instante,
o fim.
Acabou
O solo fértil logo se enrelva,
a carne podre craveja de vermes,
as pessoas...
e como vêm, se vão...
e a vida não é nada,
senão
um
instante.
Não há mal perfeito,
nem bem perfeito.
Não se preocupe com escolhas mal feitas,
não se regozije com seu próprio brilho,
não vão durar muito.
Só vida,
que leva tudo com ela,
e passa.
Exageramos o valor da vida,
até perceber que ela não é nada.
Ela vem... ela vai.
Estamos muito distanciados da morte.
Só a conhecemos pelo jornal ou
nos filmes e novelas da TV.
Só ouvimos dizer que acontece
do outro lado das telas,
no secluso abatedouro,
do outro lado da parede,
pela boca de outrem...
Na sala de espera do hospital,
no enlatado que abrimos à mesa,
no jornal cedo de domingo.
Escondemos a morte por detrás de cortinas.
Ela está perdida por aí, invisível,
enterrada.
E nada há mais valioso para o imortal
que a vida,
pois que lhe é eterna
Ilusão.
A vida vai assim como vem.
Frustrando-nos o narcisismo,
a grandiloquência que temos por nossa vida,
nada há de magnífico na morte.
E então a morte nos ensina
que nossa vida não é nada.
Não é um grande espetáculo,
aguardando o grand finale.
Na hora derradeira, não tocam as trombetas,
anjos não descem do céu,
não há lampejos de sabedoria divina,
ou últimas palavras dignas do melhor enredo.
Não, só há sujeira e dor
e,
num
instante,
o fim.
Acabou
O solo fértil logo se enrelva,
a carne podre craveja de vermes,
as pessoas...
e como vêm, se vão...
e a vida não é nada,
senão
um
instante.
Não há mal perfeito,
nem bem perfeito.
Não se preocupe com escolhas mal feitas,
não se regozije com seu próprio brilho,
não vão durar muito.
Só vida,
que leva tudo com ela,
e passa.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Ciência
Durante uma época, gostava de discutir filosofia, perder o tempo com conversas sem fim, só pelo gosto de fantasiar, discutir e me fascinar pelos mistérios do universo.
Era muito novo e o tempo passou. Comecei a pensar que essas discussões não tinham sentido. Preferia fazer uma boa piada, aparecer para as meninas, rir um pouco, em vez de discutir seriamente. Ainda era novo.
Mais tempo passou. Entrei para a faculdade e, por mais que quisesse me focar em problemas práticos, era sempre arrastado para discussões mais filosóficas. Até que, finalmente, caí de cara nelas e passei a me dedicar ferrenhamente. Descobri um grande talento para a filosofia, além de um grande prazer.
Por um momento, cheguei a vislumbrar uma luz divina, como que uma centelha da mais brilhante estrela do universo. Por um segundo, muito breve, havia sido como se percebesse a verdade do mundo. Mas foi tudo muito rápido. Não havia tido tempo suficiente para entender tudo que havia ali. A fonte era muito rica. O brilho era magnífico, mas também dificultava a visão.
Estava lá, no alto da montanha, depois de árdua escalada, esticando o braço para finalmente tocar aquela luz brilhante, roubá-la para mim e descer com ela para o mundo dos homens, mostrá-la a todos e iluminar a escuridão. Mas no momento em que meus dedos iam tocá-la, o terreno cedeu e uma terrível avalanche me arrastou violentamente para baixo.
Foi uma queda terrível, dolorosa e interminável. Cheguei ao sopé encoberto de terra, machucado, sujo, as roupas rasgadas. Estava ainda sobressaltado pelo ocorrido, embasbacado pelo que havia encontrado, ao mesmo tempo que moído pela queda. Ainda assim, corri para contar a todos, mas ninguém acreditou. Lá, no alto daquela montanha, havia uma luz incrível, capaz de iluminar de uma vez por todas as obscuridades de nosso mundo, mas ninguém se interessou.
Quando cheguei dando as boas novas, perguntaram sobre o preço do leite, o caso do prefeito e a fofoca da vizinha. Tentei contar sobre o que havia visto, mas tudo que quiseram saber foi como fiquei tanto tempo vagando por aí sem um emprego. E fui chamado de vagabundo, de inútil, de burro. Havia feito tamanha escalada, mas para quê? Que bem de valor havia trazido que pudesse ser trocado no mercado? Que pessoas havia agradado para agora lhes exigir um cargo no governo?
Tentei falar da tal luz, mas ninguém entendeu e, ainda, um outro não acreditou. Uma luz que tudo resolveria? Que mentira deslavada! E se fosse assim, o que você está fazendo aqui? Pobre, sujo, machucado, porque não usa essa luz para ganhar algum dinheiro? O filho de fulano está trabalhando, até vai comprar um carro.
Mas seria isto então? A solução para todos os dilemas da história da humanidade, subjugados por um carro?
E assim segui vivendo, entre tantos outros sujos e pobres, que não pensavam senão em se livrarem da sujeira e da pobreza, sem se dar conta de que viviam em meio a lama e miséria.
Comecei a planejar uma nova escalada. Teria de me sujeitar aos interesses dos demais homens. Já que nenhum deles acreditava em minha história e financiaria nova empreitada, teria eu de arranjar recursos por conta própria. E fingir que era como eles, para poder me misturar. Fingir que a fofoca da vizinha ou o carro novo do filho de fulano realmente eram assuntos importantes para mim. Ah, se eles soubessem, se tivessem visto por um milésimo de segundo o que vi.... jogariam para o alto tudo em suas vidas para seguir aquela luz.
E, finalmente, conheci você.
Não que não conhecesse antes, mas agora era diferente. Tocamo-nos, sentimo-nos. E por um momento senti um calor tão abrasador que se assemelhasse algo que havia encontrado no alto da montanha. E percebi que queria muito, e estava dividido entre as alturas e o chão. Queria subir novamente, mas não queria deixá-la para trás. E, assim, aos poucos, um carro, um emprego, o preço do leite, tudo isso passou a ser mais importante para mim, pois era para você.
Minha escalada ficou prejudicada. Você disse que gostava de montanhas, mas era diferente. Não estava realmente disposta a subir. Acreditei que seguiria comigo, mas em verdade você tinha os pés bem presos ao chão. Vi-me em meio à escalada, mas desprovido dos recursos e você levara e com ódio no coração a cada degrau subido. E a cada metro subido, o peso do rancor me arrastava dois para baixo.
Finalmente percebo que a ciência só pode ser feita por corações em paz. Para quem sofre, ama, odeia... que se dane o que há nas estrelas, no fundo dos mares, no início do universo. Que se danem as respostas, as perguntas, as verdade.
Tudo que se procura é paz.
Muito mais fácil de se obter
na ignorância.
Era muito novo e o tempo passou. Comecei a pensar que essas discussões não tinham sentido. Preferia fazer uma boa piada, aparecer para as meninas, rir um pouco, em vez de discutir seriamente. Ainda era novo.
Mais tempo passou. Entrei para a faculdade e, por mais que quisesse me focar em problemas práticos, era sempre arrastado para discussões mais filosóficas. Até que, finalmente, caí de cara nelas e passei a me dedicar ferrenhamente. Descobri um grande talento para a filosofia, além de um grande prazer.
Por um momento, cheguei a vislumbrar uma luz divina, como que uma centelha da mais brilhante estrela do universo. Por um segundo, muito breve, havia sido como se percebesse a verdade do mundo. Mas foi tudo muito rápido. Não havia tido tempo suficiente para entender tudo que havia ali. A fonte era muito rica. O brilho era magnífico, mas também dificultava a visão.
Estava lá, no alto da montanha, depois de árdua escalada, esticando o braço para finalmente tocar aquela luz brilhante, roubá-la para mim e descer com ela para o mundo dos homens, mostrá-la a todos e iluminar a escuridão. Mas no momento em que meus dedos iam tocá-la, o terreno cedeu e uma terrível avalanche me arrastou violentamente para baixo.
Foi uma queda terrível, dolorosa e interminável. Cheguei ao sopé encoberto de terra, machucado, sujo, as roupas rasgadas. Estava ainda sobressaltado pelo ocorrido, embasbacado pelo que havia encontrado, ao mesmo tempo que moído pela queda. Ainda assim, corri para contar a todos, mas ninguém acreditou. Lá, no alto daquela montanha, havia uma luz incrível, capaz de iluminar de uma vez por todas as obscuridades de nosso mundo, mas ninguém se interessou.
Quando cheguei dando as boas novas, perguntaram sobre o preço do leite, o caso do prefeito e a fofoca da vizinha. Tentei contar sobre o que havia visto, mas tudo que quiseram saber foi como fiquei tanto tempo vagando por aí sem um emprego. E fui chamado de vagabundo, de inútil, de burro. Havia feito tamanha escalada, mas para quê? Que bem de valor havia trazido que pudesse ser trocado no mercado? Que pessoas havia agradado para agora lhes exigir um cargo no governo?
Tentei falar da tal luz, mas ninguém entendeu e, ainda, um outro não acreditou. Uma luz que tudo resolveria? Que mentira deslavada! E se fosse assim, o que você está fazendo aqui? Pobre, sujo, machucado, porque não usa essa luz para ganhar algum dinheiro? O filho de fulano está trabalhando, até vai comprar um carro.
Mas seria isto então? A solução para todos os dilemas da história da humanidade, subjugados por um carro?
E assim segui vivendo, entre tantos outros sujos e pobres, que não pensavam senão em se livrarem da sujeira e da pobreza, sem se dar conta de que viviam em meio a lama e miséria.
Comecei a planejar uma nova escalada. Teria de me sujeitar aos interesses dos demais homens. Já que nenhum deles acreditava em minha história e financiaria nova empreitada, teria eu de arranjar recursos por conta própria. E fingir que era como eles, para poder me misturar. Fingir que a fofoca da vizinha ou o carro novo do filho de fulano realmente eram assuntos importantes para mim. Ah, se eles soubessem, se tivessem visto por um milésimo de segundo o que vi.... jogariam para o alto tudo em suas vidas para seguir aquela luz.
E, finalmente, conheci você.
Não que não conhecesse antes, mas agora era diferente. Tocamo-nos, sentimo-nos. E por um momento senti um calor tão abrasador que se assemelhasse algo que havia encontrado no alto da montanha. E percebi que queria muito, e estava dividido entre as alturas e o chão. Queria subir novamente, mas não queria deixá-la para trás. E, assim, aos poucos, um carro, um emprego, o preço do leite, tudo isso passou a ser mais importante para mim, pois era para você.
Minha escalada ficou prejudicada. Você disse que gostava de montanhas, mas era diferente. Não estava realmente disposta a subir. Acreditei que seguiria comigo, mas em verdade você tinha os pés bem presos ao chão. Vi-me em meio à escalada, mas desprovido dos recursos e você levara e com ódio no coração a cada degrau subido. E a cada metro subido, o peso do rancor me arrastava dois para baixo.
Finalmente percebo que a ciência só pode ser feita por corações em paz. Para quem sofre, ama, odeia... que se dane o que há nas estrelas, no fundo dos mares, no início do universo. Que se danem as respostas, as perguntas, as verdade.
Tudo que se procura é paz.
Muito mais fácil de se obter
na ignorância.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Membro fantasma
Hoje entendo um pouco
a dor de quem perde um membro.
Dói, coça, sonhamos com ele
e amargamos perceber que não está lá.
Demoramos a nos acostumar,
e se nem sempre dói,
muitas vezes coça, e muito,
e incomoda,
e nos dá saudade de quando o podíamos usar.
O tempo torna mais ameno,
mas nunca volta a ser como antes.
Muitas vezes deve-se recorrer a próteses,
para substituir o seu lugar,
ou a terapia, para o corpo entender
que não há mais o que esperar.
Quem sabe um dia esse membro deixe de doer.
O membro que perdi na vida,
o fantasma que assombra meu dia,
é você.
a dor de quem perde um membro.
Dói, coça, sonhamos com ele
e amargamos perceber que não está lá.
Demoramos a nos acostumar,
e se nem sempre dói,
muitas vezes coça, e muito,
e incomoda,
e nos dá saudade de quando o podíamos usar.
O tempo torna mais ameno,
mas nunca volta a ser como antes.
Muitas vezes deve-se recorrer a próteses,
para substituir o seu lugar,
ou a terapia, para o corpo entender
que não há mais o que esperar.
Quem sabe um dia esse membro deixe de doer.
O membro que perdi na vida,
o fantasma que assombra meu dia,
é você.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Nada mais importa
Tanto sempre disse, para agora me faltarem as palavras.
A quem mais mereceu, nada tenho a dizer,
mas a quem a sensatez sugere o silêncio, não me faltam
as palavras.
Seria, então, realmente justo?
Falta algo a dizer, ou apenas persiste a vontade de falar?
Entre o bem e o mal, cercado pela escolha,
seriam na verdade ilusões?
Perguntaria qual é a verdadeira origem do mal,
só para lembrar que já sei a resposta
A resposta que ao mesmo tempo explica minha mudez,
e minha vontade de falar.
Que explica minha vontade de buscar a razão do bem,
ou o remédio contra o mal.
Que concilia minha vontade de aproximar e a de fugir.
Não há o bem, não há o mal, senão aqueles que sentimos.
Não há regras, senão as que concordamos, que nos encucamos.
Não há regras... não há regras, senão a conveniência.
E toda regra tem sua conveniência,
embora nem sempre seja conveniente.
E no fim das contas... a única verdade a que se pode chegar...
é que só temos que ser felizes.
Mas se você não é...
feliz ou infelizmente...
o problema é seu.
A quem mais mereceu, nada tenho a dizer,
mas a quem a sensatez sugere o silêncio, não me faltam
as palavras.
Seria, então, realmente justo?
Falta algo a dizer, ou apenas persiste a vontade de falar?
Entre o bem e o mal, cercado pela escolha,
seriam na verdade ilusões?
Perguntaria qual é a verdadeira origem do mal,
só para lembrar que já sei a resposta
A resposta que ao mesmo tempo explica minha mudez,
e minha vontade de falar.
Que explica minha vontade de buscar a razão do bem,
ou o remédio contra o mal.
Que concilia minha vontade de aproximar e a de fugir.
Não há o bem, não há o mal, senão aqueles que sentimos.
Não há regras, senão as que concordamos, que nos encucamos.
Não há regras... não há regras, senão a conveniência.
E toda regra tem sua conveniência,
embora nem sempre seja conveniente.
E no fim das contas... a única verdade a que se pode chegar...
é que só temos que ser felizes.
Mas se você não é...
feliz ou infelizmente...
o problema é seu.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
O vermelho, o cinza e o negro
- Sangue perdido numa cabine de banheiro. Já não importa, somos jovens. Caindo o tempo todo. Barreira de vidro.
- Observo sua foto numa nuvem qualquer. O carro atravessa rápido pela avenida num dia nublado qualquer. O futuro é imenso. Mas não importa.
- Leve-me com você. Não pode, eu sei. Mas continuamos indo. Caminhos opostos. Minha garganta canta, mas não são as notas que eu gostaria que soassem.
- E vamos indo. Somos jovens. Sempre jovens. E sozinhos. Nada importa. O sangue não incomoda.
- A cabine apertada parece mais confortante agora. O sangue escorre. Cai no chão. Chão sujo. O cheiro da fumaça de cigarro invade o banheiro, junto com o som alto da música. É uma boate. E eu aqui sozinha.
- Sozinhos. O mundo todo é vazio. O céu é um monte de nada infinito. E tão imutável. As nuvens lá no alto continuam as mesmas, afastando-se muito lentamente, enquanto irrompemos em alta velocidade pela rodovia. Tudo parece tão distante, as estrelas lá no céu, as pessoas ao meu lado. Eles cantam, mas não ouço.
- A mente ainda está rodando um pouco. As coisas não se acertaram. Nunca pensamos muito bem no que fazemos quando tão jovens. Não existem consequências. Tudo pode terminar e tudo começar. Envelhecendo as coisas ficam mais difíceis. Não temos para começar tudo de novo sempre. E quando foi que envelheci, afinal?
- A vida é única. Bela e terrível. Quantas outras poderia ter sido? Só consigo imaginar agora, olhando para o céu estrelado à noite. E se tivesse virado em outra esquina? E se tivesse deixado aquela carta de lado? Como é cruel ter que escolher só uma entre tantas...
- O cinza é muito pior que o vermelho. Descobri isso. Cinza por toda a parte. Quem sabe me corto, só para ver um pouco do vermelho...
- Onde estará você nesses dias? O que teria sido de nós? Éramos tão próximos. Mas também éramos tão jovens. Eu queria ter tudo e ser tudo para você. Você sempre tão realista e eu só conseguia sonhar...
- Ando pelas ruas, vou ao trabalho, cumprimento as pessoas, fumo um cigarro e prometo novamente parar de fumar quando olho para a sua foto. Saio para almoçar, almoço sem bebidas. Compro alguma coisa na volta para o trabalho, como se essa rebeldia realmente quebrasse algo da minha rotina eterna. Dia após dia. Nem sinto falta dos sonhos. Nada aqui me lembra o que era sonhar.
- Em uma estrela distante, uma montanha se desfaz. Cirurgias, implantes, filmes, casas, mansões, carros luxuosos. Vou ao teatro. Mas é tão forte o vazio do universo que me invade quando olho o céu. Tão distante, tão indiferente, tão intocável. Uma estrela não dá sinal, a não ser por um quase invisível ponto brilhante no céu. Preencho todo o vazio com a minha própria imaginação. Não sei nada de real. Não sei nada de você.
- Saindo de uma festa. Tinha bebida. Às vezes me sinto de volta àquela cabine de banheiro. O sangue escorrendo. Misto de felicidade e medo. Mas não sinto mais o restante. Tudo mudou tanto. Menos o vermelho. Ele ainda tem a mesma cor. A mesma cor do vinho que derrama da mesa, caído da taça quebrada. E do punho.
- Por que você não me atende? Custou descobrir seu número. Também, que cabeça a minha. Já é tarde. Quem sabe outro dia você me retorna. Ou não. Vai saber. Eu só queria dizer que sinto sua falta. Quem sabe a gente não se vê num dia desses?
- Paz. Não é branca, a paz é negra. Em vez do cinza costumeiro, tudo se enche de um preto muito forte. E do silêncio. Escuto um som de telefone, cada vez mais distante, e distante... já não escuto mais.
- Quem sabe... num dia desses...
- Observo sua foto numa nuvem qualquer. O carro atravessa rápido pela avenida num dia nublado qualquer. O futuro é imenso. Mas não importa.
- Leve-me com você. Não pode, eu sei. Mas continuamos indo. Caminhos opostos. Minha garganta canta, mas não são as notas que eu gostaria que soassem.
- E vamos indo. Somos jovens. Sempre jovens. E sozinhos. Nada importa. O sangue não incomoda.
- A cabine apertada parece mais confortante agora. O sangue escorre. Cai no chão. Chão sujo. O cheiro da fumaça de cigarro invade o banheiro, junto com o som alto da música. É uma boate. E eu aqui sozinha.
- Sozinhos. O mundo todo é vazio. O céu é um monte de nada infinito. E tão imutável. As nuvens lá no alto continuam as mesmas, afastando-se muito lentamente, enquanto irrompemos em alta velocidade pela rodovia. Tudo parece tão distante, as estrelas lá no céu, as pessoas ao meu lado. Eles cantam, mas não ouço.
- A mente ainda está rodando um pouco. As coisas não se acertaram. Nunca pensamos muito bem no que fazemos quando tão jovens. Não existem consequências. Tudo pode terminar e tudo começar. Envelhecendo as coisas ficam mais difíceis. Não temos para começar tudo de novo sempre. E quando foi que envelheci, afinal?
- A vida é única. Bela e terrível. Quantas outras poderia ter sido? Só consigo imaginar agora, olhando para o céu estrelado à noite. E se tivesse virado em outra esquina? E se tivesse deixado aquela carta de lado? Como é cruel ter que escolher só uma entre tantas...
- O cinza é muito pior que o vermelho. Descobri isso. Cinza por toda a parte. Quem sabe me corto, só para ver um pouco do vermelho...
- Onde estará você nesses dias? O que teria sido de nós? Éramos tão próximos. Mas também éramos tão jovens. Eu queria ter tudo e ser tudo para você. Você sempre tão realista e eu só conseguia sonhar...
- Ando pelas ruas, vou ao trabalho, cumprimento as pessoas, fumo um cigarro e prometo novamente parar de fumar quando olho para a sua foto. Saio para almoçar, almoço sem bebidas. Compro alguma coisa na volta para o trabalho, como se essa rebeldia realmente quebrasse algo da minha rotina eterna. Dia após dia. Nem sinto falta dos sonhos. Nada aqui me lembra o que era sonhar.
- Em uma estrela distante, uma montanha se desfaz. Cirurgias, implantes, filmes, casas, mansões, carros luxuosos. Vou ao teatro. Mas é tão forte o vazio do universo que me invade quando olho o céu. Tão distante, tão indiferente, tão intocável. Uma estrela não dá sinal, a não ser por um quase invisível ponto brilhante no céu. Preencho todo o vazio com a minha própria imaginação. Não sei nada de real. Não sei nada de você.
- Saindo de uma festa. Tinha bebida. Às vezes me sinto de volta àquela cabine de banheiro. O sangue escorrendo. Misto de felicidade e medo. Mas não sinto mais o restante. Tudo mudou tanto. Menos o vermelho. Ele ainda tem a mesma cor. A mesma cor do vinho que derrama da mesa, caído da taça quebrada. E do punho.
- Por que você não me atende? Custou descobrir seu número. Também, que cabeça a minha. Já é tarde. Quem sabe outro dia você me retorna. Ou não. Vai saber. Eu só queria dizer que sinto sua falta. Quem sabe a gente não se vê num dia desses?
- Paz. Não é branca, a paz é negra. Em vez do cinza costumeiro, tudo se enche de um preto muito forte. E do silêncio. Escuto um som de telefone, cada vez mais distante, e distante... já não escuto mais.
- Quem sabe... num dia desses...
domingo, 22 de setembro de 2013
Adeus
E quem um dia diria
que, na verdade, eu sabia
e ver, conseguia
muito mais que você?
Duvidei e desconfiei
das minhas verdades
que nenhuma vantagem
me pareciam ter.
Mas a sua sensatez
mostrou-se equivocada.
Portas só existem
para serem fechadas.
Assinar:
Postagens (Atom)