domingo, 5 de janeiro de 2014

Membro fantasma

Hoje entendo um pouco
a dor de quem perde um membro.
Dói, coça, sonhamos com ele
e amargamos perceber que não está lá.

Demoramos a nos acostumar,
e se nem sempre dói,
muitas vezes coça, e muito,
e incomoda,
e nos dá saudade de quando o podíamos usar.

O tempo torna mais ameno,
mas nunca volta a ser como antes.
Muitas vezes deve-se recorrer a próteses,
para substituir o seu lugar,
ou a terapia, para o corpo entender
que não há mais o que esperar.

Quem sabe um dia esse membro deixe de doer.
O membro que perdi na vida,
o fantasma que assombra meu dia,
é você.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Nada mais importa

Tanto sempre disse, para agora me faltarem as palavras.
A quem mais mereceu, nada tenho a dizer,
mas a quem a sensatez sugere o silêncio, não me faltam
as palavras.

Seria, então, realmente justo?
Falta algo a dizer, ou apenas persiste a vontade de falar?
Entre o bem e o mal, cercado pela escolha,
seriam na verdade ilusões?

Perguntaria qual é a verdadeira origem do mal,
só para lembrar que já sei a resposta

A resposta que ao mesmo tempo explica minha mudez,
e minha vontade de falar.
Que explica minha vontade de buscar a razão do bem,
ou o remédio contra o mal.

Que concilia minha vontade de aproximar e a de fugir.

Não há o bem, não há o mal, senão aqueles que sentimos.
Não há regras, senão as que concordamos, que nos encucamos.

Não há regras... não há regras, senão a conveniência.
E toda regra tem sua conveniência,
embora nem sempre seja conveniente.

E no fim das contas... a única verdade a que se pode chegar...
é que só temos que ser felizes.

Mas se você não é...
feliz ou infelizmente...

o problema é seu.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O vermelho, o cinza e o negro

- Sangue perdido numa cabine de banheiro. Já não importa, somos jovens. Caindo o tempo todo. Barreira de vidro.

- Observo sua foto numa nuvem qualquer. O carro atravessa rápido pela avenida num dia nublado qualquer. O futuro é imenso. Mas não importa.

- Leve-me com você. Não pode, eu sei. Mas continuamos indo. Caminhos opostos. Minha garganta canta, mas não são as notas que eu gostaria que soassem.

- E vamos indo. Somos jovens. Sempre jovens. E sozinhos. Nada importa. O sangue não incomoda.

- A cabine apertada parece mais confortante agora. O sangue escorre. Cai no chão. Chão sujo. O cheiro da fumaça de cigarro invade o banheiro, junto com o som alto da música. É uma boate. E eu aqui sozinha.

- Sozinhos. O mundo todo é vazio. O céu é um monte de nada infinito. E tão imutável. As nuvens lá no alto continuam as mesmas, afastando-se muito lentamente, enquanto irrompemos em alta velocidade pela rodovia. Tudo parece tão distante, as estrelas lá no céu, as pessoas ao meu lado. Eles cantam, mas não ouço.

- A mente ainda está rodando um pouco. As coisas não se acertaram. Nunca pensamos muito bem no que fazemos quando tão jovens. Não existem consequências. Tudo pode terminar e tudo começar. Envelhecendo as coisas ficam mais difíceis. Não temos para começar tudo de novo sempre. E quando foi que envelheci, afinal?

- A vida é única. Bela e terrível. Quantas outras poderia ter sido? Só consigo imaginar agora, olhando para o céu estrelado à noite. E se tivesse virado em outra esquina? E se tivesse deixado aquela carta de lado? Como é cruel ter que escolher só uma entre tantas...

- O cinza é muito pior que o vermelho. Descobri isso. Cinza por toda a parte. Quem sabe me corto, só para ver um pouco do vermelho...

- Onde estará você nesses dias? O que teria sido de nós? Éramos tão próximos. Mas também éramos tão jovens. Eu queria ter tudo e ser tudo para você. Você sempre tão realista e eu só conseguia sonhar...

- Ando pelas ruas, vou ao trabalho, cumprimento as pessoas, fumo um cigarro e prometo novamente parar de fumar quando olho para a sua foto. Saio para almoçar, almoço sem bebidas. Compro alguma coisa na volta para o trabalho, como se essa rebeldia realmente quebrasse algo da minha rotina eterna. Dia após dia. Nem sinto falta dos sonhos. Nada aqui me lembra o que era sonhar.

- Em uma estrela distante, uma montanha se desfaz. Cirurgias, implantes, filmes, casas, mansões, carros luxuosos. Vou ao teatro. Mas é tão forte o vazio do universo que me invade quando olho o céu. Tão distante, tão indiferente, tão intocável. Uma estrela não dá sinal, a não ser por um quase invisível ponto brilhante no céu. Preencho todo o vazio com a minha própria imaginação. Não sei nada de real. Não sei nada de você.

- Saindo de uma festa. Tinha bebida. Às vezes me sinto de volta àquela cabine de banheiro. O sangue escorrendo. Misto de felicidade e medo. Mas não sinto mais o restante. Tudo mudou tanto. Menos o vermelho. Ele ainda tem a mesma cor. A mesma cor do vinho que derrama da mesa, caído da taça quebrada. E do punho.

- Por que você não me atende? Custou descobrir seu número. Também, que cabeça a minha. Já é tarde. Quem sabe outro dia você me retorna. Ou não. Vai saber. Eu só queria dizer que sinto sua falta. Quem sabe a gente não se vê num dia desses?

- Paz. Não é branca, a paz é negra. Em vez do cinza costumeiro, tudo se enche de um preto muito forte. E do silêncio. Escuto um som de telefone, cada vez mais distante, e distante... já não escuto mais.

- Quem sabe... num dia desses...

domingo, 22 de setembro de 2013

Adeus

E quem um dia diria
que, na verdade, eu sabia
e ver, conseguia
muito mais que você?

Duvidei e desconfiei
das minhas verdades
que nenhuma vantagem
me pareciam ter.

Mas a sua sensatez
mostrou-se equivocada.
Portas só existem
para serem fechadas.


(...) E quem diria que na verdade eu sabia mais que você? Eu mesmo não confiava muito nas minhas verdades, tão pouco proveitosas elas pareciam a mim. Mas no fim das coisas, toda a sua sensatez se provou equivocada. Portas existem para serem fechadas.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Fluxo

Não sei como definir, mas uma epifania me toma. Por vezes cheguei a momentos "definitivos" em minha vida. Mas todos passaram. Vivi várias vidas dentro de uma única e curta vida até agora. Vários "eus". Inúmeras vezes cheguei à conclusão de que "esse é quem eu realmente sou" ou "quero ser". Todos contraditórios entre si, compartilhavam apenas o nome e a fluidez inerente. Não sei se isso ocorre com todo mundo, mas apenas agora me dou conta disso. Talvez seja algo banal, mas a banalidade é muito mais fruto das palavras que não conseguem reproduzir todo o prisma envolvido. É muito extasiante olhar para tantos locais definitivos e eternos que passara.

O mais significativo deles, talvez, tenha sido minha estadia em Juiz de Fora. Era disciplinado, estudioso, bondoso, religioso, otimista em relação à vida. Frequentava assiduamente a academia, cuidava da alimentação, estudava com afinco, fazia planos austeros. Queria terminar a faculdade de psicologia e fazer o mestrado para o qual havia sido aprovado. Mas também continuar fazendo medicina. Queria ser professor, pesquisador, psicólogo, psiquiatra. E tudo andava nessa direção. Há anos não saía à noite, não bebia. Ou havia feito apenas poucas vezes durante as férias. Não mais me preocupava em ser o "pegador" da noite. Na verdade isso era parte de outro "eu" que há muito havia passado. Enfim, minha vida era perfeita e estava decidido a trilhar esse caminho pela eternidade.

Mas esse tempo passou. E foi difícil entender que havia passado. A transição foi muito dolorosa. Todas as minhas crenças foram colocadas à prova, e em um dado momento me vi sendo obrigado a passar por todo o oposto daquilo que eu havia sido e de que tanto me orgulhava. Pense nisso, o contrário de "disciplinado, estudioso, bondoso, religioso, otimista em relação à vida". Não é muito legal, não é? Em vez de orgulho, passei a ter vergonha. E essas coisas foram levadas ao seu extremo. Não fazia sentido. Afinal, eu me identificava com coisas positivas. Não podia admitir ser uma pessoa ruim. E realmente fui. Sem rodeios, sem justificativas ou desculpas. Não quero achar nada que reduza a dimensão do verdadeiro culpado, que realmente fui eu.

Porém, isso também passou, felizmente. Na verdade foi um período muito louco. Agora  é vez de outro período. Mais uma vez gostaria que fosse eterno, mas preciso reconhecer que não será. Tudo na minha vida é um estado eterno de transição. E em geral são transições drásticas.

Pelo menos aprendi a desconfiar sempre do todo. Tudo são apenas partes. Agora vivo mais uma, entre infinitas que se sucederão. Quem sabe em uma delas eu esqueça disso e volte a acreditar que algo pode ser eterno. Afinal, tudo pode acontecer. Só não pode parar.

domingo, 1 de setembro de 2013

Saudade, palavra triste...

Para acompanhar a leitura, sugiro essa música de fundo: http://www.youtube.com/watch?v=5WOcU7J9F3E

Não sei o que é pior sobre a saudade. Talvez seja a simples desnecessidade. E assim a saudade se perpetua, como algo que não precisa ser combatido, que devemos deixar simplesmente ali, pulsando, invisível para todo o mundo. A saudade não mata, daí não precisamos matá-la. É cruel e dissimulada, covarde que se esconde o tempo todo, até que um dia aparece e cutuca. Depois some de novo. E fica assim, nessa guerrilha perene. Não dá para fugir dela, pois aonde quer que se vá, lá está ela aguardando.

Outro dia você estava ali, sentada à mesa fazendo suas coisas. Quando eu chegava, você me recebia com um sorriso. Várias vezes você veio me lembrar de algo que havia esquecido, implicava com o meu jeito de fazer as coisas. Estava ali, de pé, usando aquele seu short azul de todo dia, fazia comida, testava uma receita. Ou então estava andando por essas ruas, e uma hora a gente simplesmente se esbarrava...

Mas não sei se esse ainda é o pior da saudade. O que me incomoda mesmo é ver um mundo de possibilidades se desfazendo. Tantas conversas que poderíamos ter, tantos assuntos sobre os quais queria saber sua opinião, tantas coisas que gostaria de lhe mostrar. Porém, acima de tudo, dói não poder ver seu sorriso. É dele que sinto mais falta. Seu sorriso era tão gostoso, tão amável. Era o contraste perfeito do rosto de menina no corpo da grande mulher que você é.

E de repente, aparece essa tal da saudade para me lembrar o quanto eu gostava, mas também para me mostrar o quanto ele se vai desmanchando. Já não lembro mais como era seu sorriso. Não consigo imaginar todos os seus detalhes, toda a sua complexidade. Resta apenas uma sombra, que a cada dia fica mais disforme, até que um dia vá se perder completamente.

A saudade não vai acabar. Mas ela vai deixando de ser algo e se transformando em abstração pura. Aos poucos, não me resta algo de que ter saudade. Vai virando saudade pura, saudade de nada. Só saudade. Como se deixasse de ser saudade de você e passasse a ser minha. Não tenho mais saudade, mas sou alguém que sente saudade. Que sente um vazio inexplicável, onde nada mais falta, nada há o que faltar. E você se torna apenas uma sombra amorfa que me persegue.

Já não me incomoda a sua ausência. Ela não me mata, e assim eu ela sobrevivemos. Já somos cúmplices, ela minha eterna companheira, minha terrível algoz. Mas o que dói é saber que tudo está se perdendo, se desmanchando no ar. E pelo menos as minhas lembranças gostaria de reter comigo. Entendo que não possamos ser um do outro na vida real, mas ao menos nos sonhos, vez ou outra, poderíamos ser felizes. E é a morte dos sonhos a pior parte da saudade. Ela me segue, mas vai matando você. Bem aos poucos. Pois enquanto a saudade se alimenta da ausência, esta só aumenta o vazio que você deixou.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Reino de Havana

(...) E o Rei, vendo que a turba agitada se aproximava empunhando foices e tochas, correu atrás do Bobo da Corte. As vozes clamavam por justiça e vingança. Sangue deveria ser derramado. O Rei aparece com o Bobo ao seu lado sobre as altas muralhas do castelo que o protegem da multidão inflamada, cujas vozes se agigantam ao ver os representantes da monarquia diante de seus olhos e, apenas por pouco, inalcançáveis para suas mãos. O Rei tenta falar, mas sua voz não é suficiente para sobrepujar o sufocante som que provém das ruas. Gesticulando, informa que o Bobo irá até eles conversar. Então, os portões do castelo são abertos com cuidado, protegidos por vários guardas para conter o avanço da multidão. Por um estreito corredor, sai o bobo. Um estrondo indica o fechamento dos portões atrás de si. Não havia mais caminho de volta. Inutilmente o homem tenta conversar, já cercado pelos camponeses raivosos. Levam-no e torturam-no enquanto discutem se devem decapitá-lo na guilhotina ou amarrá-lo a uma fogueira. Enquanto agridem de todas as formas o Bobo, vociferam que é melhor o próximo a ocupar seu cargo ser melhor sucedido, caso contrário o povo novamente se fará ouvir. Resolvem entregar o homem aos cães famintos e, o que sobrar, jogar ao fogo. Sange foi derramado, o desejo da multidão foi satisfeito. Enquanto isso, ao longe, o Rei assiste por cima da muralha, apenas acenando para seu povo furioso, no meio do qual alguns homens comentam, orgulhosos, como seu bom Rei permitiu que a justiça fosse feita.