quinta-feira, 20 de junho de 2013

Desejos impossíveis, improváveis, indesejáveis

Uma vez quis transmitir a felicidade que sentia, mas não consegui fazer-me entender;
tentei dar o amor que tinha, mas não consegui fazê-lo ser recebido;
tentei mostrar a tristeza que me assolava, mas não fui confortado.

Hoje sinto paz. E o desejo de que também a tenhas. Mas, uma vez mais, só a mim ela serve.
Uma vez me disseste que meus problemas eram problemas meus. Acontece que não só eles, mas minhas alegrias também são apenas alegrias minhas.

Por mais que eu queira, não posso te passar a calma que me toma.
Tudo me impede de ta dar, mas agora não é diferente de antes ou do que sempre foi.
Tudo se formou para dar certeza de que não será de mim que tua paz provirá, mas apenas de ti mesma. O recado que recebi do destino é claro: "afasta-te ou só piorarás as coisas. Sabemos o que fazemos quando abandonamos alguém à própria sorte. Funcionou contigo, então não reclamas e te afastas. Não ouses te aproximar, do contrário serás tu também abandonado, como antes, e usado em prol do nosso objetivo. E lembre-te, se tu conseguiste, não prives os demais de conquistarem suas delícias com os próprios méritos. Esta é única maneira de conquistá-los, aliás."

O máximo que posso fazer, e certamente farei, é não atrapalhar.
Mas temo que nem nisso tu poderás confiar, e nem aí poderás achar algo que esmoreça tuas tantas dores. Dores não pequenas, ainda aumentadas por minha ação. Ação irreversível, cujos danos, por mais que eu queira, não posso reverter. A dor tem vida própria e segue sozinha depois de criada. Mas certamente tem também uma razão de ser.
Afinal, do destino, fiz-me ferramenta, embora para ofício a que não me havia candidatado. E agora, uma vez mais, prossigo. Nada posso fazer, senão torcer. E sei que nem o conforto de acreditar na sinceridade de meus votos tu terás. Nada mesmo posso fazer, nada posso oferecer. É um nada tão pleno, tão absoluto, que nem sequer posso descrevê-lo. Não há impurezas, migalhas ou vestígios insignificantes de alguma utilidade que possa eu ter. Não. Nada disso. Apenas o vazio. Deserto incólume. Nada. Branco. Vazio.

Não queria ter sido usado com esse intuito. Mas, afinal, não cabe a mim decidir sobre o que pensas e sentes. Tudo que eu disser será tomado como mau. Já não tenho controle sobre isso, se alguma vez o tive.
Serás, contra minha vontade, atormentada pela imagem que tens de mim. Com minha colaboração, é certo, mas jamais com minha aquiescência. Mas serás antes atormentada por ti mesma, até que percebas que apenas a ti compete encontrar tua paz. E, acrescentando mais um conselho que não poderá surtir qualquer efeito a menos que chegues a ele sozinha: a falta da paz, sim, demonstra que algo fazes de errado. Não culpes o mundo. Cabe apenas a ti. O mundo pode te dar problemas, mas jamais usurpar o conforto que trazes no coração. Sofrer é um erro teu. Deves tu encontrá-lo. Deves tu, também, chegar a conclusão de que é hora de procurar, de que é hora de mudar. Que há algo de errado, e algo de errado ao alcance de tuas mãos. É possível! Deves tu perdoar os demais, perdoar a ti, e começar a entender. Uma vez mais, não serei eu ou meus conselhos que poderão ajudar no mínimo que seja. Falo antes para mim mesmo, já que o alheio por ti passa inerte, sem deixar qualquer marca, sem afetar, sem mudar, sem fazer-se sentir. És intangível, exceto para a própria matéria que te compõe. Atravessam a ti todos os espíritos, exceto tua própria alma. Pesada alma.

E como não é reconhecimento que desejo, não espero que seja esse texto lido, tanto mais quanto nada há de bem que ele possa fazer. Em vez disso, que ao menos meus pensamentos de amor, anônimos, possam a ti chegar e ajudar com essa batalha. Permanecerei anônimo, incognoscível, talvez odiado, mas já não importa. Desejar o bem é o que me dá paz. Talvez esse texto seja lido. Talvez um sopro divino revele a verdadeira essência do que tento nele expressar. Talvez em meio a tantos erros e mágoas, floresça um acerto e acalento. Talvez eu seja, ao menos, uma preocupação a menos, entre tantas.

Não conto com isso, contudo. Como disse, já me dou por satisfeito por não atrapalhar. Desconheço a verdade, mas alegro-me a pensar que és esperta e vais saber discernir o que é necessário. Quanto a mim, o meu caminho já conheço. Só me resta nele continuar.

sábado, 15 de junho de 2013

Nota literária

A língua é algo extraordinário. Serve a diversos propósitos. Contudo, podemos fazer apenas um texto de cada vez, de modo que escolhas devem ser feitas. E escolhas implicam renúncias.

Assim, por vezes escolho uma forma de expressão mais técnica e rebuscada. Contando com um vocabulário mais amplo, consigo escolher palavras mais precisas para dar nome às minhas idéias. O texto fica mais exato, claro (com menor margem para ambiguidades), etc. Contudo, perde-se também com isso. Primeiramente, o que se ganha em precisão, perde-se em facilidade. O texto se distancia de nossa experiência cotidiana. Para compreender as diversas palavras de um vocabulário amplo, precisa o leitor dispor também de um grande cabedal vernacular; precisa estar familiarizado com estruturas linguísticas menos comuns, conjunções pouco utilizadas, formas complexas. Depois, torna-se o texto também mais cansativo. Requer maior atenção, mais desgaste psíquico acompanhando a linha de raciocínio, mais memória para ligar as idéias distintas. E, por fim, o texto torna-se demasiado impessoal, frio, formal.

Enganam-se os incautos, que esperam obter maior expressividade com palavriado rebuscado. Ao contrário, é a simplicidade que toca os corações. As paixões são simples, o intelecto é que é complexo. Existe algo mais singelo que o que sentem os apaixonados? Felizes só de estarem ali, de mãos dadas, olhos nos olhos. Existe algo mais tocante que a felicidade da criança encotrando seu herói? São coisas simples, fáceis de entender. Diferem do intelecto, dos nomes de neutrotransmissores, das tramas de conexões sinápticas, das denominações neuroanatômicas, da terminologia psicológica. A expressão acontece onde menos há palavras, e talvez por isso tanto se diga quando alguma emoção é forte demais que alguém "perdeu as palavras". O pôr-do-Sol, o nascimento de um filho, uma foto antiga. Que serventia tem as palavras? Um olhar, um suspiro. A lágrima derramada; outra, contida. Saudade. E como é indescritível a saudade. Aquilo que se pode tocar, ou somente observar à distância, ou apenas imaginar.

As palavras passam vergonha quando se as tenta utilizar nessa situação. Não dão conta do recado, diante dessa plenitude. Tem-se aí, então, o valor dos artistas das palavras. Sabem escolher, dentre as palavras, aquelas que tem menos palavras e que dizem mais. Dizem o que não pode ser dito. Falam daquilo que sentimos, não do que vimos. Não falam das verdades. Falam do mar, das flores, de pássaros, do pôr-do-Sol ou do brilho da Lua, mas dizem muito mais. Falam das belas estrelas, purpurinas no negro vazio, cintilando, mas não se ouve a distância fria que delas nos separa, ou a aspereza de seu solo longínquo. Não. Ouve-se o brilho infantil que temos aqui dentro, perdido no vazio eterno que se construiu em volta. Não se fala de estrelas ao se falar de estrelas. Fala-se de gente e de saudade, de amores e decepções, de tristezas e  esperanças. Fala-se de como olhar o céu é apenas apreciar um espelho, enorme e belo, daquilo que a gente carrega no íntimo. Vemo-nos nas banalidades do dia-a-dia, porque nossos desejos são banais; nossas vontades são simples; nossos amores, infantis.

E não se pode falar tudo de uma vez. Cada palavra só pode vir uma a uma. E aí cai a grande decisão a ser feita quando se põe alguém a escrever. Descrever o mundo ou se expressar nele? Dizer o que as palavras dizem, ou o que a alma grita? Fazer-se entender, ou deixar livres os sons para o universo formar as palavras que queira ouvir?

Não existe decisão acertada. Cada uma serve a um propósito. Pode-se, inclusive, temperar a exatidão com um pouco de humanidade, ou dar algum rumo ao total desconcerto das paixões. Deve-se, aí sim, dosar-se o tanto que se mistura de cada um na fórmula, para não deixá-la demasiado aguada ou endurecida, dependendo do que se queira.

Esses cuidados sempre tentei ter. Nunca quis ser frio com seu coração, mas também não queria perder a razão em expressividade vazia. Fazia cada um de uma vez. Tratava como ciência, a ciência. E amolecia para falar de almas.

Não me entendestes, contudo, tu. Supuseste em mim encontrar a mediocridade que acostumada estava a ver em todos, talvez até em ti mesma. Não sou "a cold hearted scientist". Nunca estive refratário aos seus sentimentos. Não tanto quanto estiveste aos meus. Mas apenas uma palavra de cada vez podia ter te oferecido. E ouvindo os primeiros cantos da madrugada, pensaste conhecer todo o discurso de cor. Não ouviste o que eu tinha para dizer. Acusaste-me de não ter te entendido, quando nem qual compreensão eu tivera chegaste a saber.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Hospitalidade

Eu sou a escuridão. Ninguém vê o que guardo, mas apenas imaginam conforme queiram o que está lá dentro escondido. Muitos supoem tesouros escondidos. Outros têm medo. E outros ainda ignoram as trevas, conhecendo apenas a luz. São poucos, contudo, que ousam adentrar. E cada qual encontra algo diferente. Alguns, depois de se machucarem nos espinhos escondidos no escuro, fogem correndo e bradando: "Cuidado! Cá existem monstros!". Outros têm a sorte de encontrar algumas delícias, e se perdem no invisível, tateando perenemente na tentativa de tê-las novamente. Mas nenhuma pessoa entende o que há no escuro. Cada qual conhece apenas aquele pouco que toca, nunca enxerga o todo. Muitos vêem figuras nas sombras. A imaginação prega peças quando não enxergamos. No fim, a escuridão é inescrutável. Fujo se alguém me joga alguma luz. Não estou aqui para ser conhecido. Estou para esconder. Para abrigar suas fantasias, para que deposite seus temores, para que esconda suas impurezas. Nenhuma monstruosidade, por pior que seja, parece feia no escuro. Somente o escuro ousa abrigar as maiores obscenidades, as maiores deformidades, dores, calamidades e barbáries. Aquilo que você depositou no escuro fica nele. As pessoas temem a sombra por não saberem o que há nela, mas todo o terrou que deixou comigo continua lá. Ninguém o vê, não se preocupe. Mas eu vi. Eu sou a escuridão e o que me procura não pode me ficar invisível. Aquilo que abraço me toca em toda a extensão. Engulo tudo que você me deposita. Somente eu conheço os seus terrores. Somente eu vejo o que há naquilo de escuridão que há em você. Escuridão sua que encontrou repouso na minha. Você chegou com um recipiente, cheio de escuridão e medo, e deixou comigo. Não sei se era seu interesse pedir que eu o guardasse para você, ou se apenas o segurava enquanto fugia das outras pessoas, que não deveriam vê-lo. Mas quando viu, estava escondida aqui, no lado mais escuro. E quando se viu cercada pelas trevas, quando viu os monstros do invisível se acercando e rodeando, rapidamente fugiu. Deixou para trás o seu pote de escuridão. Que jamais reencontrará. Ele se misturou ao escuro, se diluiu e incorporou. Somente à escuridão se mistura outra escuridão. Agora você entende? Porque ninguém vê o que há na escuridão de você? Porque só eu posso vê-la. Mas para isso teria de enfrentar perigos reais e imaginários. Teria de se arriscar, se perder em meio ao nada. Não, ninguém está disposto a isso. Saiba que seu segredo está seguro comigo e que, ao menos uma vez, alguém viu todas as sombras que lhe atormentam e, em vez de fugir, as abraçou. Olhei o que havia dentro do potinho que me trouxe, olhei para tudo de pior que há em você. Apertamos as mãos e mostrei a ele os aposentos que passaria a ocupar. A sua escuridão torna a minha ainda mais negra, mas não difere da substância mesma que me compõe. Fica até bonita no lugar onde a deixei. E você, uma vez mais, fugiu para a luz, desesperada com o que viu, e jamais adentrará o breu novamente.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O náufrago e o cirurgião

Afogam-se as minhas palavras. Outrora, fosse me dado um assunto e jorrariam palavras minhas sobre ele, opiniões, interpretações, considerações, críticas, análises. Mas sobre aquilo que realmente importa não consigo falar. Algo me impede a voz. Apenas deliro. É impressionante como somos capazes de fazer tanto mal, ainda que queiramos fazer apenas o bem. Chega um momento em que não conseguimos enxergar a linha que divide as coisas. Quando negar ajuda é egoísmo e quando passa a ser sobrevivência? Quando ferir ensina e quando maltrata? Onde termina o céu? Onde acaba o mar?

Sempre pensei muito sobre a distinção entre as coisas. No final, não há distinção. Interpretamos de acordo com o contexto que está dado. Assim, uma mesma ação ousada levará o título de coragem quando der bons frutos, e de irresponsabilidade quando malograr. O pai que castiga o filho, está traumatizando-o ou ensinando? E como saber, sem fazê-lo?

Dar-se em sacrifício para ajudar outrem: bondade sublime ou idiotice masoquista? Como saber? Dado o contexto em que vivemos, onde cada um só se preocupa consigo mesmo, parece que a segunda opção é a que vale. As pessoas cobram o bem que você lhes deixa de fazer, sem se aperceber do mal que lhe fazem.

Nunca tive más intenções, embora nem sempre tenha agido bem. Ou melhor, minto. Tive más intenções, mas que no momento me pareciam a justa retribuição aos ferimentos sofridos. Pura tolice! O mal nunca pode ser justo, o mal nunca pode ser o bem, por mais que tente se passar por ele. Mas como então, explicar o valor do sofrimento? Como desculpar-se o médico que fere o braço da criança em prantos, aterrorizada, em nome de um bem vacinal? Estará ele fazendo bem? Ou estará fazendo mal?

Dizem que o sofrimento ensina. Mas ensina o que? Ensina a sofrer?

E que um sofrimento menor capaz de aplacar outro maior é justificado. Eu já não sei o que dizer. Não me parece honesto decidir sobre um sofrimento que não se sente. O sofrimento alheio sempre nos parece mais ameno que aquele que consome nossa própria carne. Ou nossa própria alma.

Certa vez, conversando com uma pessoa muito querida, concluímos que não há sofrimento maior que aquele que aflige a alma. Desse-me Deus a possibilidade, não pensaria duas vezes em escolher a maior dor carnal em troca de completo alívio das aflições do espírito.

Mas não existe tal troca. Não existe tal alívio.

As dores do corpo são muito urgentes e, para saná-las, recorremos com pressa à quaisquer meios disponíveis. Colocamos o dedo queimado sob a corrente de água fria. Tomamos analgésicos para as dores do corpo. Usamos anestésicos para adormecer as feridas abertas. Um rapaz com a perna quebrada, não pensa senão em algo que lhe estanque a dor, mais que o sangramento. Buscamos o descanso quando o desgaste nos consome, quando os músculos dóem, quando continuar parece um enorme sacrifício. E buscamos o ar quando somos asfixiados! Respiramos, ofegantes, despertos novamente. São mesmo desejos muito urgentes!

Contudo, ainda mais urgentes são as dores da alma. Mas para estas não há remédio imediato. Não há procedimento que alivie a dor. Fazer uma cirurgia em um paciente, observá-lo com a pele cortada, a carne exposta, as vísceras remexidas, e sem anestesia, falar para que aguente, que a dor vai passar. Essa é a sensação de quem tem a alma aflita. A mente arde, seus pensamentos corróem como ácido. Não é possível pensar, agir. Tudo vira uma dolorosa confusão sem fim. Desespera-se por uma medida de alívio, mas nada pode parar a dor. Grita-se, chora-se, esperneia-se, tal qual faria o rapaz da perna quebrada, se deixado fosse no meio da multidão sem auxílio. Mas nenhum socorro vem.

Entretanto, o quadro é ainda mais tétrico. Não apenas falta um socorro imediato, mas também a previsão de alívio. Submetido à uma dolorosa cirurgia, o paciente ao menos conforta-se esperando que, ao término do procedimento, sua dor esmoreça, as feridas cicatrizem, os tecidos se recompanham, esqueçam o trauma a que foram submetidos e voltem a funcionar. Mas não com a alma. Nunca se sabe quando uma alma parará de doer. Talvez nunca. E essa incerteza corrói mais ainda. A falta de perspectivas positivas às quais se apegar mata. Náufragos, sem ter em quê se segurar, nadam sem parar. Não sabem se um dia encontrarão uma ilha onde se refugiar ou uma embarcação que os salve. Talvez todo sofrimento para se manter vivo seja inútil. Talvez fosse mais proveitoso se entregar à inevitável morte no mar, escapando ao menos da agonia da exaustão corporal. Entregar-se às ondas...

Tendo a morte como certa, de que vale uma vida de sofrimento?

Não há feridas à mostra, ossos quebrados, hematomas, sangue, febre. Nada diagnosticável. Nada compreensível para quem não sente. A dor segue incólume; o doente, esquecido, vagando sozinho, abandonado, invisível, incompreensível. Não se vêem mortos enterrados, sob a terra, sob as águas, sob as máscaras. Nada se sente por eles. Nada pode ser feito para ajudá-los.

Mas o sofrimento da alma é inevitável. Pois aquilo que faz a alma sofrer está por aí, em todo lugar, contaminando o ar, a água e os olhares. Inspira-se, bebe-se, sente-se o sofrimento por toda a parte, carecendo apenas da sensibilidade para ser por ele afetado. E quem sofre, faz sofrer! Machuca a todos. Quase num grito desesperado por socorro.. Um grito jamais capaz de transpassar o deserto ao redor. Um grito silencioso. Um grito que já nasce morto na garganta, afogado pelas águas desse mar.

Se eu amo? Claro que sim! Em especial as pobres criaturas sofredoras. Queria tanto poder fazer algo para lhes subtrair o sofrimento, mas toda tentativa redundou em piora. Perdoai meu fracasso contigo. Sinto-me como o cirurgião que, prometendo-te extrair o tumor, percebe-se incapaz e abandona a operação, deixando-te ainda com a doença e a barriga aberta a sangrar. Jamais devias ter confiado em mim, tão inexperiente doutor, cujas entranhas também dóem, sem que seja capaz de as apaziguar.

O amor parece só poder vir do sofrimento, pois só quem sofre é capaz de entender o que se passa noutra alma sofredora (ou só pode vir da felicidade?). Mas entender, compreender, querer, não são bastantes para ajudar. Jamais consegui te ajudar. Aliás, talvez tenha conseguido, em breves momentos. Espero que pelo menos um dia de tua vida tenha sido melhor graças a minha presença nele. Muitos meus assim o foram graças a ti, muito embora outros tenham sido bem piores pelo mesmo motivo... desculpe! Eu falo demais, e você não merece tais cobranças. Erramos os dois. Talvez eu mais. Nunca saberemos de verdade. Mas sempre tentei ter boas intenções.

E continuo as tendo. Por isso busco evitar o máximo possível mexer naquilo novamente. Descobri-me um péssimo cirurgião de almas. Não tenho estômago para mexer nas entranhas de um espírito. Muito mais fácil abrir o corpo, cortar, remendar e fechar. A cicatrização da alma, por sua vez, é muito mais lenta e complicada, e o mínimo erro pode deixá-la sangrando eternamente. Sem falar que não há instrumentos de proteção. Não há luvas para os cirurgiões de almas e é muito fácil se contaminar por aquilo que se deseja tratar. Também é fácil se contaminar pelos sonhos, pelos sorrisos, pelo carinho, que de uma hora para outra podem desaparecer. E você se percebe sozinho. E vê que, na verdade, não operava a alma de outrem. É você quem está ali, deitado sozinho no centro cirúrgico, ò cirurgião desalmado, é você quem precisa de reparos. Mas o quarto continua sozinho e você não tem a quem gritar. Ou talvez sejam só ilusões... que bobagem, achar-me um cirurgião, achar-me deitado numa cama, quando sou apenas um simples e delirante náufrago, sozinho, se afogando no mar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Batman

"Sabe por que eles o atacaram, não sabe?
Estavam com medo de você."

"Com medo de mim?"

"Todas as criaturas tem medo."

"Até mesmo as assustadoras?"

"Especialmente elas."

(Batman Beguins - 2005)

domingo, 5 de maio de 2013

O abismo e o amor

Estou com medo. Meu coração está disparado. Sinto frio na barriga. Não consigo dormir.

Estou morrendo de medo. Não consigo parar de pensar. Não consigo pensar direito. Não sei se tenho fome, ou se é outro o vazio que sinto dentro de mim.

Mas estou com medo. Medo do que sinto estar crescendo dentro de mim. É amor. Puro e verdadeiro. Enorme e arrebatador. Não dá espaço para mais nada. Paro para uma nova olhada. Sim, é amor. Um amor muito grande e inesperado. Um amor que eu jamais poderia esperar.

Afinal, quando esse amor surgiu? Desde quando está ali apertando meu peito, tirando meu fôlego, tomando minha mente? De onde vem esse amor, que chega furtivo, que invade sutilmente, que toma de uma vez só todo o meu domínio?

Mas é amor. Grandioso e belo amor. Amor por você! Não consigo pensar em outra coisa. Se ligo a TV, qualquer programa só faz lembrar você. Se penso nas montanhas do Himalaia, só fico imaginando como seria estarmos os dois lá em cima. Apreciarmos a vista, dividir o momento, trocar olhares e suspiros.

Sem dúvida é amor. Terrível e cruel. Não me perguntastes se eras bem vindo. Apenas chegastes e te alojastes em meu peito. Estúpido amor!

E quanto medo eu tenho. Medo de que não me queiras. Medo de sofrer. Medo de nem tentar, por medo.

Encaro esse amor de frente e congelo. É grande, é arriscado, é perigoso. É belo, é divino, é adorável. É olhar o pôr-do-Sol no horizonte debruçando na beirada de um abismo. É tremer com o medo de cair lá de cima, mas ainda assim querer debruçar-se mais e mais para ver melhor.

E como eu quero me debruçar sobre você. Quero me jogar nesse amor. Mesmo com medo, mesmo com todo o frio na barriga. Mesmo sabendo que a queda, do alto de um amor desses, é certamente fatal. Medo de que os sinais que tu me dá sejam pedras soltas, caindo no nada após perder o apoio onde pensava encontrá-lo.

Mas é tão bela a cena que me seduz. Impede-me de voltar atrás. De desistir e virar as costas. Não, não mais consigo virar as costas à tamanha beleza.

Feliz era quando não sabia o que era amar você! Fosse me dado um único desejo... não saberia o que fazer. Fossem dois, desejaria voltar no tempo em um instante e jamais haver lhe conhecido; e desejaria que esse instante durasse toda a eternidade, para que nunca fosse embora o meu sentimento.

A vida, afinal, parece ter uma fria tristeza embutida nela. E que é responsável por toda a beleza. Observar um campo de flores depois da chuva, refletindo os raios de Sol em suas cores através das infinitas gotas a lhe cobrir... a chuva já veio, lutou, despejou sua ira, castigou com ventos, tentou afogar. Fez muitas flores se curvarem, outras desviarem de seu caminho, algumas feridas, pétalas rasgadas, caules quebrados, raízes expostas. Mas ficaram de pé novamente. A chuva umedeceu o solo. Deu-lhes o tão desejado alimento. E depois foi-se embora. Deixou sua marca, cobrindo sutilmente a epiderme, deixando ínfimas gotículas, finas como a seda, repousando delicadamente. E veio o Sol, aquecendo, jogando um turbilhão de luzes sobre as intrépidas flores. Agora aquecidas, radiantes, energizadas, aproveitando água e luz para florescer mais ainda. Para retribuir a dádiva solar, devolvendo um arco-íris de cores, de aromas. Inundando a paisagem com uma beleza indescritível. Indescritível e efêmera. Assim como a noite veio e cessou, assim como o dia dá lugar à noite, também essas flores brilharão apenas por um tempo. Logo acabarão. Logo restarão apenas marcas. E as marcas também irão. E só sobrará a lembrança, de quem, por um instante, pode apreciar esse espetáculo. Em um breve sopro de sua vida, esbarrou com o mágico, e aquele instante se petrificou. Virou um sentimento sublime. Tornou-se lembrança. Ficaram as marcas daquele momento. Que também passarão. E a vida acabará. E tudo acabará. E tudo continuará.

Não tem como fugir da tristeza da vida. A tristeza está imiscuída em tudo que é belo. E não faz sentido a vida sem a beleza.

Assim também é o meu amor por você. Belo. Triste. Passageiro, embora ainda seja a coisa mais sólida que pode haver. Pequeno, perto do tamanho do sempre, mas enorme perto de tanto quanto posso ter. Imenso. Gigantesco. Brilhante. Maravilhoso amor. Um amor tão grande, que só consigo ver uma coisa que seja maior que ele mesmo. E isso é você. Pois, por maior que seja o amor que sinto, ele é apenas um reflexo do que emana de você!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Chain of thought

Lindo amor

já não sei quem sou

sentado à mesa

deitado na cama

refletir...

Rio de Janeiro,

tão distante, misterioso, indecifrável

um sonho nosso, sonho meu.

Cadê você?

Você viveu, você cresceu

Você morreu no sonho que era meu.

A bondade não se sustentou...

Choro sem parar, por dentro, sem que ninguém veja.

Penso, vivo, rio, me divirto.

Tantos mistérios nessa vida. Sensações a descobrir.

Uma boa angústia, que aperta o peito, mas é bonita e sublime.

Lá ao longe os prédios, tão próximos, dentro de mim.

Dentro da vida. Uma vida inteira. Fé.

Desculpe por tudo.

Só o que vale é a felicidade e o amor que nunca acabará.

O mistério continua para ser sentindo

Embora seja desfeito pela realidade.

Ainda espero te ver. E os seus olhos azuis.

Que escondem muito...

Desculpas. Peço a mim mesmo.

Por ter acreditado apenas em mentiras.

Que eu mesmo contei....

Desculpe-me, por não ter sido feliz o bastante

Para evitar que você fosse tão triste.

Por não ter sido forte o bastante

Para ajudá-la com sua fraqueza.

Por não ter sido real o bastante

Para realizar os seus sonhos...

Alcance a felicidade,

não se esqueça do mistério.

Não se esqueça do infinito.

Não deixe que a vista se canse para o óbvio.

E acredite nas ilusões mais vívidas.

O que importa é o misterioso, o despertar.

É a busca, muito mais que a conquista.

É sentar-se à mesa.

Deitar-se na cama.

Refletir.

Sonhar.

Imaginar.

...

Não me entenda errado... eu apenas te amo.